16 de setembro, 2026 04:13

  Em todo amanhecer, uma oportunidade nova nos é dada.
  Se ela vai ser bem utilizada ou não, já não cabe a mim dizer; há tanto tempo desde que tive certeza de alguma resposta dada. Tem vezes que acordo esperando uma ligação de pessoas que eu sei que não vão me ligar, em outras eu me pergunto se estas minhas mensagens serão entregues, e se forem, se serão compreendidas.
  Creio que em nenhum momento da vida, obtive respostas, apenas perguntas que sobressaiam as outras e acabavam por soterrá-las.
  “Será que eu deveria falar sobre isso? Será que é melhor eu me calar? Será que alguém vai sentir falta das minhas palavras caso eu falhe com minhas obrigações?”, são tantas perguntas que me faço diariamente, mas temo que foram poucas as que tentei responder com sinceridade.
  Muitas vezes, temos medo de olhar para dentro de nós mesmos. Nem sempre vamos gostar do que encontramos lá.
  Sinto pena de quem não o faz. Estes acreditam estar livres, mas o canário segue voando na sua gaiola.
  Pessoas são incríveis. O potencial que existe em cada uma delas me encanta, e a forma como elas possuem o livre arbítrio de escolher o que fazem com ela é um espetáculo. A sensação de viver sem buscar respostar deve ser tão apaziguadora.
  Não é à toa que dizem que a ignorância é uma benção. Contudo, devo admitir que gosto de me sentir o maldito dentre estes abençoados. Reconheço minha tolice; nada sei nesse mundo, mas porventura não reconheço, também, as peculiaridades encontradas na simplicidade daqueles que andam alterados, entorpecidos?
  Não sou uma pessoa que sai muito de casa, porém quando o faço, pouco me arrependo. As figuras que encontramos nesse mundão são pitorescas, ainda mais quando estão fora de si.
  Talvez eu tenha me tornado o próprio alienista do conto de Machado de Assis, e qual o mal nisso?
  Em um dos poucos dias que saí, aproveitei para encontrar-me com um amigo. Fazia meses desde que eu não encontrava ninguém fora minha família desde o início da quarentena.
  Bati perna por muitas horas, mas quando estava quase dando o horário de nos encontrarmos, recebi uma mensagem dizendo que ele iria atrasar.
  Depois de vários dias de calor intenso, o tempo finalmente aparentava estar amenizando com a chegada das breves mas forte chuvas da primavera.
  As nuvens negras que vinham do leste eram minhas únicas companhias enquanto aguardava por meu amigo. A brisa suave me refrescava depois de algumas horas de caminhada. Cansado, acabei por me sentar numa mureta.
  O silêncio logo se foi, dando espaço para os passos de um homem que se aproximava. Em uma de suas mãos ele empilhava dois copos de plástico com água, daqueles que vem lacrado. Ele olhou para mim, e cambaleando, foi chegando mais perto, estirando o braço que segurava os copos em minha direção e me oferecendo um deles. O outro ele já estava bebendo.
  O homem se sentou do meu lado, um pouco distante, e fazia sinal com sua mão livre, apontando para a nuvem maior que se formava.
  — Vai chover. — constatou o homem, claramente alcoolizado pelo cheiro do seu hálito.
  — É, vai sim.
  O silêncio permaneceu por alguns segundos, até que ele me ofereceu o outro copo de água mais uma vez. Novamente, neguei.
  Ele balbuciava e foram poucas as palavras que eu pude compreender. As que consegui, já estão aqui.
  — A vida não é justa. — o bêbado comentou. Me mantive em silêncio para ver aonde ele queria chegar. — Eu tenho uma chácara numa cidade aqui perto; sou herdeiro. Também vou herdar R$80.000 da minha mãe, mas olha onde estou.
  Em seguida, ele começou a falar do quanto a família é importante, mas que ainda assim era injustiçado.
  — Tenho três irmãos, cada um vai receber R$3.000.000 da herança. Não é justo, mas com o valor que vou receber já consigo ajeitar minha vida. Até lá, eu vou andando até Marília.
  Nesse meio tempo, minha companhia já havia bebido os dois copos de água.
  Agora que sua história já havia sido contada, o homem se levantou e se despediu com um aperto de mão. Cambaleando, ele se foi, mas sem antes olhar uma última vez para mim e apontar para a nuvem e dizer que iria chover.
  Digamos que eu seja um tanto quanto surpreendido facilmente e talvez tenha acreditado em sua jornada injusta, também não nego que só metade da suposta herança dele já faria minha vida. Um outro lado meu, mais realista, acredita que aquele homem era só mais um andarilho, que diferente de muitas pessoas, tinha um norte para seguir.
  Em meados de 2014, fui pagar um boleto na lotérica e outro homem embriagado veio até mim. Todos o ignoravam, mas eu dava trela.
  Era época de Copa, e ele disparava críticas ao treinador da seleção brasileira da época. Não entendo de futebol, mas quem quer que aquele cara seja, aquele torcedor não estava muito feliz com ele não. Como os jogadores que ele fala que deveriam ser escalados ou tirados do time, era como se ele me chutasse a bola e eu passasse de volta, até que ele se revoltou tanto com o treinador que foi embora.
  Foram conversas bobas, que em inglês poderíamos chamar de small-talk, mas que certamente foram divertidas.
  Me pergunto se aquele caminhante chegou até Marília, ou se resolveu sua vida com os “míseros “R$80.000. A curiosidade de saber qual foi a reação do torcedor de sangue verde e amarelo quando perdemos de 7 x 1 também me assombra até hoje.

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