3 de outubro, 2026 18:56

“La femme et le TGV”.

Não ando dormindo muito cedo.
  Na verdade, se formos analisar que, devido a minha insônia, acabo não dormindo e quando caio no sono já é dia, talvez eu esteja dormindo cedo sim. Aí vai do ponto de vista.
  Durante uma dessas noites que não dormi, me deparei com um curta metragem nos confins de uma plataforma de streaming; ele se chamava “La femme et le TGV”.
 
O filme, baseado em uma história real, falava sobre Elise, uma mulher solitária que morava do lado de um trilho de trem, e que toda manhã abria a janela para acenar quando este passasse. Certo vez, uma carta escrita pelo condutor do trem, Bruno, cai no seu jardim, e desde então começam a se comunicar por elas. Elise enviava as cartas, que escrevia numa máquina de escrever, por correio e no dia seguinte, quando o trem passava, era respondida por outra carta ou presentes, principalmente os queijos caseiros feito pelo condutor.
  Elise era uma pessoa sem muitas conexões, já que seu marido havia falecido e seu filho morava fora, ela se via sozinha a maior parte do tempo. Sua padaria havia sido esquecida, apagada pelos mercados da redondeza, tendo apenas uma cliente fiel, que fazia os mesmos pedidos diariamente.
  Durante um dia de trabalho, um jovem, Jacques, estaciona na frente do seu estabelecimento, pois estava indo até um estúdio de dança do outro lado da rua. Irritada, pois a vaga era apenas para clientes, ela vai até a porta do local onde o garoto adentrou e bate na porta que logo é aberta pelo mesmo. Ela dá uma bronca nele, e amigavelmente é respondida com um convite para dançar com ele e as meninas do estúdio. Elise explicou a situação e exigiu que o carro fosse retirado, e Jacques disse que poderia se tornar cliente também.
  Em outro momento, o garoto vai até a padaria de Elise e compra algumas trufas antes de retornar ao estúdio. Tentando se aproximar dela, ele menciona o anúncio de que ela procurava um ajudante, mas ela nega estar precisando.
  Da vitrine do estabelecimento, era possível ver a sombra de Jacques dando uma delas para uma das dançarinas, e então um beijo. Aquilo engatilhou uma ideia em Elise de que ela e Bruno, o condutor do trem, estariam num relacionamento. No dia do aniversário dela, ela se encontra com seu filho, Pierre, o qual acredita que sua mãe deveria se mudar para uma casa de idosos, mas ela nega a sugestão e ainda diz que estava bem, inclusive, estava namorando. Quando Pierre ouve quem era o suposto amado de sua mãe, ele entra em choque. Ainda mais quando ela some do nada do restaurante onde estavam. Ela havia ido para casa, pois estava quase na hora do trem passar, mas isso não ocorreu.
  Se recusando a usar a internet ou até mesmo um computador, ela entra em contato com a empresa do trem que diz que aquele havia mudado tanto a rota quanto o itinerário. Abalada, Elise pega no sono, e é visitada por Bruno durante a noite, que não conseguindo acordá-la, deixa apenas uma carta por baixo da porta, dizendo onde poderiam se encontrar, pois teria que mudar de cidade, e assim o encontro deveria ocorrer dentro de um certo horário.
  Elise, então, ao ver a hora, pega sua bicicleta e segue até a cidade onde Bruno pegaria o trem, e no caminho encontra Jacques, que dá uma carona para ela, e inclusive a acompanha.
  Ao chegar na estação, Elise procura por seu amado, mas ele já estava dentro do trem. A chamando, a mulher vê Bruno se comunicando através da janela, e ele apresenta sua esposa.
  Depois de alguns segundos, a cena é cortada e mostra Elise na padaria, alegre, junto de Bruno com um chapéu de cheff e pode se ouvir do lado de fora um anunciante falando sobre a reabertura da padaria de nossa protagonista, e uma multidão de pessoas esperando pela abertura das portas. Em uma das cenas finais, Elise está escrevendo em um computador, que tomou o lugar de sua máquina de escrever, e esta comenta: “Eu sempre quis me firmar na minha vida. Eu tinha medo de perde-la” Me pergunto se eu realmente precisava escrever um resumo do filme, eu poderia ir direto ao ponto, mas acredito que se tivessem um aprofundamento do que eu queria que vocês vissem comigo, ficaria mais simples onde quero chegar.
  A vida é como um trem.
  Os trilhos vão continuar ali, mas circunstâncias nos fazem ter de mudar o itinerário, a rota, às vezes até mesmo a região onde vamos residir, e que muitas vezes não está nos nossos planos. Não faz parte dos nossos sonhos.
  Elise se viu presa em fazer as mesmas coisas todos os dias, pois assim o fazia com seu filho quando criança, que seguiu um rumo diferente tanto literalmente quando figurativo, que ela esperava.
  O tempo passa.
  O tempo passou, não é mesmo?
  Não sei de muitas coisas, na verdade, nem sei se eu sei de alguma coisa.
  Não tenha medo de perder a vida, tenha medo de não aceitar que ela continua.
  Se acreditarmos que os dias bons ficaram no passado, não vamos nos permitir vivenciar os que estão por vir.
  Que o condutor mude.
  Que o itinerário não seja mais o mesmo.
  Mas se o ouvir o barulho dos trilhos do trem, jamais deixe de acenar.

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