— Ei, vamos brincar! —, exclamou a pequena, que foi ignorada por aqueles que se encontravam no quarto com ela. Junto dela estavam eu e meus primos, todos mais velhos que a garotinha entediada.
  Apesar de termos diferença na idade, tínhamos algo em comum; nossa atenção era dirigida aos aparelhos digitais. Meus primos em seus respectivos celulares e eu no computador.
  Como, dos três, a mais nova era mais apegada a mim, esperavam que eu desse uma resposta e continuidade a proposta da mesma. Bom, assim o fiz.
  Meus primos se encontravam sentados na minha cama e nossa pequena convidada em uma poltrona.
  — Tudo bem, espera eu terminar essa partida que a gente vai brincar. —, a respondi, voltando minha atenção ao jogo. Num cenário competitivo, é necessário manter o foco, mesmo que em um ambiente virtual. Ainda assim, pude notar, pelo canto dos olhos, que a menininha se emburrou e se afundou na poltrona. Era nítido o tédio no seu rosto.
  Pouco tempo depois, a partida havia terminado e me virei para nossa visita, a qual prontamente olhou de volta pra mim, mas com uma expressão ainda emburrada.
  — A gente pode brincar agora? —, inquieta, ela me perguntou.
  — Claro, mas brincar de quê?
  — Não sei, de qualquer coisa, ué.
  — Como assim qualquer coisa? Você que queria brincar, então pensei que você já tivesse algo em mente. —, minha resposta foi um pouco ríspida, então suspirei e desviei o olhar. Fiquei envergonhado de ter respondido a uma criança dessa forma, como ela mesmo disse, que nem gente grande.
  — Vocês só ficam nesse celular, jogando! —, ela esbravejou. Sua postura, na poltrona, havia mudado; ela realmente demonstrou um certo nível de revolta.
  Esperando que eu tomasse algum tipo de providência, meus primos olharam para mim e eu tornei a encarar a menina.
  — A gente não é mais criança para saber brincar.
  — É, mas um dia vocês já foram crianças também! —, aquela réplica ecoou (e ainda ecoa) na minha cabeça, enquanto a assisti levantar da poltrona e sair do quarto.
  Hoje essa criança já é uma moça e desenvolveu hobbies diferentes dos nossos, felizmente.

  O relato acima não é por acaso, como tudo que escrevo. Este texto irá ao ar, originalmente, durante a Semana da Criança, e por isso gostaria de refletir sobre ela. Não, não sobre a data e nem aos pequenos que vivem conosco, mas sobre aquela criança, que em algum momento de nossas vidas, se emburrou na poltrona e quando viu que não tinha lugar ali, foi embora.
  A vida é feita de fases, muitas delas, e a infância é primordial pra muitas das características que vamos levar pelo resto de nossa jornada, sejam elas boas ou questionáveis.
  Acho engraçado como as pessoas negam a mudança e percebem a vida como um conjunto de renúncias e não como um acordo entre prioridades. Há, sim, muitas escolhas na vida que exigem que abramos mão de outros objetivos, compromissos, mas isso não significa que tudo deve ser abandonado pois a vida quer assim.
  Quem sabe, nesta semana tão especial, os leitores deste texto estarão presenteando suas crianças? Quem me dera houvesse uma criança lendo-o também; me sentiria a pessoa mais honrada do mundo em saber que pude proporcionar um momento de lazer e reflexão a alguém iniciando sua jornada na vida.
  Quando pequenos, caímos muitas vezes e nos machucamos, mas com o tempo nosso joelho ralado cicatriza; nem o Merthiolate arde mais, e assim vamos vivendo.
  Como a criança que queria brincar mas seus companheiros não conseguiam a compreender, o mundo assim nos convida a aceitar a notoriedade de que a infância é tão linda, mas tão superficial e passageira, enquanto, na verdade, ela continua firme e forte dentro de nós.
  Aquela criança na poltrona ainda existe dentro da mocinha lendo livros, e bom, aquele garoto no computador ainda está no mesmo lugar, mas a corrida contra o tempo já não é mais com os jogos, mas com as exigências da vida adulta. Ainda assim, a criança que ele foi ainda existe, e se estivesse estimulada como a maturidade que nos cobram desde muito jovens, certamente estaria fazendo companhia para aquela criança, que espera pelo momento que seus companheiros estejam livres para brincar com ela.
  Enquanto houver vida, há existência de todos os nossos eus.
  Não permita que rotina monótona silencie o chamado da criança.
  Se permita ser feliz, ser livre para estimular nos outros a fantasia e a imaginação, mesmo que o mundo te diga “não”. Não permita que o sonho morra na fronha.
  Não permita que aquela criança se levante da poltrona, e muito menos que o superficial do mundo digital, profissional e material entrem em conflito, mas buque formas de entrar em acordo.
  Não sei em que momento da vida começamos a fugir da chuva em vez de almejar nos encharcar e deixar que a enxurrada nos leve, mesmo isso sendo um tanto quanto imprudente. Também não sei quando deixamos de construir castelos de areia para querer construir impérios que ruem tão rápido quanto.
  De qualquer maneira, busque sua felicidade. Não acredito que ela vai estar em coisas materiais, mas nos momentos que estes nos proporcionam. Viva como a criança que procura com quem brincar, sem medo de ser julgada, pois no final, o arrependimento será unicamente seu.
  Não estou dizendo para abdicar dos compromissos da vida adulta, mas sempre que possível, se permita ser criança mais uma vez. A infância é só uma parcela da nossa vida, depois disso, somos apenas “gente grande”, que muitas vezes, diminuem por dentro.

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