sobre pedras e homens

Muitas vezes me pergunto se, em algum momento da vida, fazemos escolhas que realmente mudam o curso da nossa jornada terrena. Talvez eu seja novo de mais para pensar nessas coisas, ou velho demais para refletir em coisas que já não posso mais mudar. Entretanto, sigo pensando. Minha mente é inquieta e admito que sinto falta do silêncio.
  É como o mar, que mesmo que as ondas se quebrem, o som delas continua silencioso. Talvez porque é algo natural e não consideramos como barulho.
  Para evitar meus pensamentos, costumo sempre andar com fones de ouvido. A música é meu analgésico; há vezes que a dor que ela transmite me abraça por saber que alguém se sente como eu, em outras ela me chama para dançar, e não sou tolo de negar seu convite.
  Honestamente, me sinto um objeto inanimado.
  Me sinto uma pedra.
  Como Raul Seixas, aprendi a não temer a chuva vendo as pedras que choram sozinhas no mesmo lugar.
  Passamos toda nossa vida buscando a felicidade, acreditando que ela se encontra em momentos do passado que já não vão mais voltar.
  A verdade é que não existe uma verdade, então um manual que nos ajude nesta jornada é improvável de ser escrito. Talvez nós nos identificamos com o que tal pessoa diz, mas nenhuma experiência é igual.
  O tempo é relativo; presente, passado e futuro coexistem, portanto não faz sentido querer se curar com o que te machucou ou pode te machucar.
  Sim, as vacinas são basicamente assim, mas quem me dera existisse uma injeção que acabasse com a minha solidão.
  As pedras na costa são constantemente chicoteadas pelas ondas, e imagino que se fossem feitas de carne como nós, o sal faria arder os ferimentos como mil Sóis.
  As estradas feitas de pedregulhos são lindas, mas tão solitárias. As pedras estão unidas, mas em unidades. Estão sozinhas.
  As mesmas pedras que podem enfeitar podem derribar o maior dos homens, destruir a maior das mansões e acabar com toda uma espécie. As pedras têm tanto poder, mas mesmo assim parecem tão inofensivas.
  Há muitos monumentos como as pirâmides de Gizé e as pedras de Stonehenge, monumentos tão antigos que guardam segredos até hoje desconhecidos. A curiosidade dos homens nos motivam a estudá-las, mas fazer o mesmo com as nossas pedras internas pode ser tão doloroso…
  Nunca sabemos se um deslizamento vai esmagar nossos corações, ou se uma pedrinha no rim pode nos causar tanta dor.
  A chuva cairá sobre as pedras e os homens, os homens destruirão vidas como as pedras, mas no final, estamos todos fadados ao mesmo futuro inerte. Uns fogem dele, outros o abraçam.
  Contanto que não se tornem as pedras que tanto evitamos, tudo vos é lícito.
  Contudo, aqui vai o conselho de um velho que há pouco tempo existe:

  Deixem o passado no passado. A dúvida pode nos sufocar, mas é melhor prevenir que remediar. A dor da incerteza se as pedras vão rolar pode ser corriqueira, mas jamais pesará mais que as toneladas da frustração

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