29 de outubro, 2026 16:28

28 ANOS DE HISTÓRIA: ENTRE O BRILHO DAS COLUNAS SOCIAIS E A VERDADE DE QUEM FAZ A DIFERENÇA

Por Marô Viana

 Jornalista, produtor cultural e presidente do Conselho Municipal de Políticas Culturais de Tupã. Outubro de 2026 representa um marco importante na minha trajetória. São 28 anos de história na comunicação social, uma caminhada construída com trabalho, aprendizado, desafios, encontros e, principalmente, com a oportunidade de conhecer pessoas e histórias que ajudaram a formar quem sou hoje.

Minha trajetória começou em 1988, na Folha do Povo, quando eu ainda era conhecido como Marquinhos Viana e assinava a coluna social First Class  Naquele período, o jornal Diário, com o tradicional Diário 2, de Ditto de Oliveira, também ocupava seu espaço na imprensa de Tupã. Éramos profissionais que acompanhavam festas, acontecimentos, personalidades e os movimentos de uma sociedade que valorizava muito a presença, os sobrenomes e o reconhecimento público.

O tempo também transformou a sociedade. As tradicionais famílias passaram a conhecer os emergentes e respeitá-los, hoje convivem todos em um sistema de AGO (abaixar a cabeça a um ser superior e saber quem é que manda).  Pessoas que antes ocupavam posições discretas conquistaram espaços importantes, enquanto outras, que pareciam ter prestígio permanente, descobriram que a vida não oferece garantias de eternidade a ninguém.

E talvez essa seja uma das primeiras lições que os anos me ensinaram: o reconhecimento social é passageiro, mas o caráter e as atitudes deixam marcas que o tempo não apaga facilmente.

Não tenho nada contra quem deseja aparecer, conquistar espaço, divulgar seu trabalho ou receber reconhecimento. Todos temos nossas necessidades, nossos sonhos e nossas formas de buscar realização. A visibilidade, inclusive, pode ser importante para valorizar projetos, mobilizar pessoas e ampliar o alcance de boas iniciativas.

A reflexão começa quando nos perguntamos se estamos fazendo o bem porque acreditamos na causa ou porque precisamos que os outros saibam o que fizemos. Será que toda boa ação precisa de aplausos? Será que o valor de uma pessoa pode ser medido pela quantidade de fotografias, homenagens ou publicações que recebe?

São perguntas que merecem ser feitas, não para condenar ninguém, mas para que possamos olhar para nossas próprias atitudes.

A solidariedade verdadeira não depende de silêncio absoluto, assim como a divulgação de uma ação não significa, necessariamente, vaidade. O que realmente importa é a intenção, a responsabilidade e o resultado concreto na vida de quem recebe ajuda.

Por isso, seria injusto falar de solidariedade sem reconhecer o trabalho dos clubes de serviço, das entidades assistenciais e de tantas pessoas que dedicam parte de suas vidas ao próximo.

Meu respeito ao Rotary, ao Lions, aos companheiros Paul Harris e a todos aqueles que fazem do serviço uma prática cotidiana. São campanhas, doações, projetos e ações humanitárias que, muitas vezes, não chegam ao conhecimento de toda a população, mas fazem uma diferença imensa na vida de muitas famílias.

Também reconheço iniciativas como o GAV o Semeando Esperança e tantas outras instituições, grupos e pessoas que se mobilizam para acolher, proteger, alimentar, educar e oferecer oportunidades a quem precisa.

Seria impossível citar todos os nomes sem correr o risco de deixar alguém de fora. A todos, manifesto minha admiração e meu respeito. Sei que existem pessoas que oferecem tempo, recursos, trabalho e afeto sem esperar nada em troca. Pessoas que compreendem que a solidariedade não é um discurso, mas uma responsabilidade com a vida do outro. Esses exemplos precisam ser valorizados. Afinal, uma sociedade melhor não se constrói apenas com palavras bonitas, cargos ou promessas, mas com iniciativas concretas, compromisso e disposição para transformar realidades.  Ao longo da minha trajetória, também tive o privilégio de conhecer pessoas que me ensinaram o significado da generosidade e do acolhimento. Algumas já não estão entre nós, mas continuam presentes na minha memória e na minha formação humana.

Lembro-me do Dr. Liarte, ligado à Faculdade de Direito; do Dr. Gilberto Fraiz  Vasques, uma referência na advocacia e na história da OAB; de Dona Norma Villagra da Silva Marques, do Lar Santo Antônio, cuja dedicação às causas sociais, ao lado de sua família, deixou lembranças importantes.

Recordo também Neusa Rasi, pelo exemplo que representa, e Neusa Preta, Sebastiana Ramos Chagas, que fez parte da minha vida durante vinte quatro anos e nunca me deixou faltar acolhimento e segue seu legado no centro espírita ESTRELA D´Alva II, por suas sobrinhas que fazem da fé o auxílio a quem precisar.

Cada uma dessas pessoas contribuiu, à sua maneira, para que eu compreendesse que a verdadeira importância de alguém não está apenas na posição que ocupa, mas na forma como trata aqueles que cruzam seu caminho.

A vida, entretanto, também nos ensina a conviver com as ausências. Quando perdemos pessoas que foram referências, percebemos o quanto a presença humana é valiosa. Felizmente, novos encontros acontecem, e hoje também tenho padrinhos e pessoas presentes, vivas, autênticas, em quem posso confiar e que continuam fazendo a diferença na minha caminhada.

Não escrevo essas palavras para pedir piedade, misericórdia, ajuda ou qualquer benefício. Não se trata de cobrar favores, tampouco de exigir reconhecimento. Trata-se de uma reflexão pessoal e profissional de alguém que, depois de tantos anos de trabalho, continua tentando compreender as contradições da sociedade em que vive.

Sou jornalista, artista, produtor cultural e, atualmente, presidente do Conselho Municipal de Políticas Culturais de Tupã. Minha atuação me coloca diariamente diante de diferentes realidades, expressões artísticas, necessidades sociais e pessoas que lutam para ter voz, espaço e oportunidades.

Sou também um defensor da diversidade, do respeito às diferenças e das minorias que, historicamente, enfrentam preconceitos, invisibilidade e barreiras para exercer plenamente seus direitos.

A cultura me ensinou que nenhuma sociedade se torna verdadeiramente democrática quando apenas algumas vozes são ouvidas. É preciso abrir espaços, reconhecer talentos, respeitar trajetórias e compreender que as diferenças não diminuem ninguém. Ao contrário, ampliam nossa capacidade de conviver e aprender.

Mas, diante de tudo isso, há uma pergunta que continua me acompanhando: por que algumas pessoas sentem que precisam provar seu valor todos os dias, mesmo depois de tantos anos de trabalho e contribuição?

Por que, em determinados ambientes, a história construída parece valer menos do que as relações de conveniência do momento? Por que, às vezes, a empatia desaparece justamente quando alguém mais precisa de compreensão?

Não tenho respostas definitivas. Talvez cada um de nós precise olhar para dentro de si e avaliar quais critérios utiliza para reconhecer o outro. Talvez seja necessário compreender que ninguém conhece integralmente as dificuldades, as renúncias e os desafios que uma pessoa enfrentou para chegar até aqui.

A hipocrisia, muitas vezes, não está em um gesto isolado, mas na distância entre aquilo que defendemos publicamente e aquilo que praticamos no cotidiano. Falamos de respeito, mas nem sempre ouvimos. Defendemos a solidariedade, mas, por vezes, ignoramos quem está ao nosso lado. Celebramos a diversidade, desde que ela não contrarie nossas conveniências.

Será que estamos dispostos a oferecer aos outros o mesmo respeito que exigimos para nós? Será que conseguimos reconhecer o mérito de alguém sem nos sentirmos ameaçados? Será que sabemos estender a mão sem transformar a ajuda em instrumento de poder ou de cobrança?

Essas questões não pertencem a um grupo específico. Elas dizem respeito a todos nós.

Também aprendi que nem sempre encontraremos apoio onde imaginávamos. Algumas relações se fortalecem pela convivência e pela confiança; outras se revelam circunstanciais. Há momentos em que o reconhecimento não vem, mesmo quando acreditamos ter contribuído de maneira significativa.

Nessas horas, é importante não permitir que a decepção nos transforme em pessoas incapazes de reconhecer o bem que ainda existe. Continuar acreditando na cultura, na solidariedade e na capacidade humana de fazer a diferença é também uma escolha.

Aos que acreditam que o dinheiro, os cargos, os sobrenomes ou a influência garantem superioridade, deixo uma reflexão simples: um dia, vale a pena caminhar por um cemitério e observar quantas histórias ali repousam.

Entre aqueles túmulos estão pessoas que foram amadas, admiradas, influentes e respeitadas. Pessoas que tiveram conquistas, sonhos, responsabilidades e posições importantes. A vida de cada uma delas teve um significado que não pode ser resumido ao poder que exerceu ou aos bens que acumulou.

A morte nos recorda que ninguém permanece para sempre no lugar que ocupa. Por isso, talvez seja mais importante pensar no que estamos fazendo enquanto temos a oportunidade de viver, trabalhar, ajudar e transformar realidades.

Não se trata de diminuir as conquistas de ninguém, mas de compreender que a dignidade humana não depende de posição social. Todos merecem respeito. Todos enfrentam desafios. Todos têm uma história que não pode ser julgada apenas pelas aparências.

Se você pode ajudar, ajude. Se não pode ou não deseja ajudar, respeite. Se não concorda com a trajetória de alguém, não precisa desqualificá-la. E, se as diferenças lhe causam estranhamento, lembre-se de que ninguém precisa ser igual a você para merecer dignidade.

Aos 28 anos de caminhada na comunicação social, continuo aprendendo. A experiência não me torna dono da verdade, mas me oferece a oportunidade de observar, questionar, rever conceitos e reconhecer aquilo que realmente importa.

Continuo jornalista porque acredito na força da palavra. Continuo produtor cultural porque acredito na transformação que a arte proporciona. Continuo na luta por uma cultura mais democrática porque sei que muitas pessoas ainda precisam conquistar espaços que deveriam estar abertos a todos. E continuo acreditando na solidariedade porque já experimentei, na própria vida, a importância de encontrar pessoas dispostas a acolher e ajudar.

Não espero que todos concordem comigo. Também não preciso que todos me aplaudam. O que desejo é que possamos construir relações mais verdadeiras, nas quais o respeito não dependa da conveniência, a empatia não seja seletiva e a solidariedade não se transforme em disputa por reconhecimento.

Depois de tantos anos, compreendo que a vida não exige que provemos nossa importância a cada instante. Ela nos oferece, diariamente, a oportunidade de demonstrá-la por meio de nossas escolhas.

No fim, o verdadeiro legado não é quantas portas se abriram por causa do nosso prestígio, mas quantas vezes ajudamos alguém a encontrar a própria porta. Não é quantas pessoas nos aplaudiram, mas quantas vidas conseguimos tocar com respeito, dignidade e verdade.

Que os próximos anos sejam de mais cultura, mais diálogo, mais empatia e menos julgamentos. Que saibamos reconhecer quem faz o bem, valorizar quem trabalha e respeitar até mesmo aqueles cuja história não conhecemos por completo.

Porque o mundo não precisa de mais pessoas tentando provar que são melhores do que as outras. Precisa de mais pessoas dispostas a compreender que ninguém se torna verdadeiramente grande diminuindo alguém.

Marô Viana

Jornalista, artista e produtor cultural

Presidente do Conselho Municipal de Políticas Culturais de Tupã

28 anos de história na comunicação social

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